terça-feira, 30 de maio de 2023

In Memoriam de Rita Cândida de Mello

 Agradecimento,

Labitur nune quoque ex oculis gutta meis!!

Ana Maria da Conceição, seu esposo Joaquim Machado de Faria e Mello e o seu filho Joaquim Machado de Faria e Mello Júnior, eternamente gratos às pessoas que fizerão o grande obséquio de assistir à missa do segundo aniversário que mandarão rezar na Capela de N. S. do Carmo de Pains, por alma de sua mãe, sogra e avó, D. Rita Cândida de Mello, viúva do finado Capitão Manoel Gonçalves de Mello, vem hoje por intermédio da imprensa agradecer à essas pessoas e render também sinceros agradecimentos ao digníssimo Capelão deste lugar, o Reverendo Sr. Padre Mestre Joaquim da Silva Pereira, que havendo de celebrar o sacrifício incruento do Cordeiro Imaculado por alma da finada, leu, junto de seu túmulo, a seguinte oração funebre: Sic ciné separat amara maos! É assim que a morte nos separa do que nos é mais caro! Uma cena de dor, meus senhores., à nossa vista se desenrola! Silêncio, tristeza, sinais de luto.. eis o que presenciamos neste momento!! Os sinos lentamente se dobrão e sua voz plangente vai ecoando tristemente pela concavidade dos rochedos! Funereos cirios a derramarem pálido clarão pelo templo do Senhor parecem revelar algum triste acontecimento alguma recordação dolorosa! O sacerdote com acenos de dor entoa o canto que a Igreja ordenada entoar-se por ocasião da morte de seus filhos! Que é isto, Srs.? Que significa todo este triste aparato? Que traduzem tantos símbolos de dor? Ah! É necessário dizer-o embora não pouco nos custe; é força declara-lo embora não pouco nos custe; é força declara-lo, não obstante nossa justa repugnância. É que hoje completa-se o segundo aniversário do enterramento da Excelentíssima Senhora D. Rita Cândida de Mello, muito digna esposa do finado Capitão Manoel Gonçalves de Mello! E que hoje lembrando-se do dia 7 de Março de 1879, dia da amargura, dia da tristeza, chorão filhos, chorão filhas a perda de sua mãe; pranteão amigos tão sentida morte; Lamentão-se escravos pela privação de tão boa senhora; debulha-se em lágrimas a pobreza, a quem foi limpava-lhe as lágrimas da fome. A própria Igreja e este mesmo Santuário do Senhor pela voz de seu indigno ministro, sentidas queixas faz ouvir, porque recorda-se de que já lhe falta quem com tanto zelo cuidava do seu aceio, de seu decoro, de suas alfaias, em resumo de toda sua ornamentação. E assim, meu Senhores, como conter os gemidos que do peito nos querem arrebentar? Como sufocar tão fontes soluços? Que lágrimas mais naturais, que lágrimas mais razoáveis as nossas! Na phrase expressiva de uma grande escritor são as lágrimas - o sangue do coração.  Ah! e como se nos não sangrará o coração, quando consideramos o valor da joia que perdemos, o preço do tesouro que pela mão da morte nos foi roubado! Espírito cheio de fé - ela foi receber na glória a recompensa de suas robustas crenças; alma profundamente religiosa - é hoje galardoada por Aquele, que é o principio e o fim de todas as coisas; cora
ção caritativo - goza hoje aos resplendores da luz eterna a plenitude desses bens que sua mão liberal derramou durante a vida no seio do pobre. Passou na terra os seus dias fazendo beneficio, cumprindo os deveres do seu Estado, educando pia e catolicamente a seus filhos e preparando-se para a eternidade. Profundo golpe desfechou-lhe a morte de seu esposo; armada, porém dessa coragem inquebrantável dessa resignação á vontade de Deus, que a religião e só a religião sabe infundir, sua grande alma não se deixou sucumbir em tão apertado transe. Novo golpe ainda veio feri-la. Motivos graves, mas desconhecidos, razões que ignoramos, mas que respeitamos, arracão repentinamente o zeloso sacerdote, o virtuoso ministro do altar, então digníssimo Capelão deste Distrito. E, inesperadamente, (oh triste lembrança!), vê-se este povo sem o pastor de suas almas! Cai na orphandade este rebanho, e D. Rita Cândida de Mello é privada do Guia espiritual de sua piedosa alma, do anjo tutelar da sua velhice! E não poude mais, (se nos é licito dize-o) e não poude mais a venerável matrona resistir aos embates da sorte! Também os cedros do Libano por muito zombão dos ventos e das tempestades; mas lá vem um furacão que os lança por terra em um instante. Sumiu-se, portanto, de entre os vivos, aquela sobre cujo túmulo vimos hoje depositar saúdes, perpétuas e goivos, humidecidos com as lágrimas que vertem parentes, amigos e toda a pobreza deste Distrito. Ela morreu, mas vive ainda o seu espírito, falta ainda com a eloquência a sua caridade. Honrados descendentes daquela, cujas cinzas hoje veremos, imitei os seus exemplos, seja a sua vida um livro aberto a vossos olhos, onde lêa-se estas três palavras ali escritas em grande caracteres - Fé, religião e caridade. Honrai o seu nome, mostrai-vos dignos filhos de tão digna mãe, e já que haver feito rolar sobre os seus ossos a fria lágrima da dor e da saudade, aos céus erguei vossos olhos e de que vossos lábios trêmulos saia uma prece fervorosa dirigida ao Altíssimo em favor daquela cujos sufrágios nos reúnem neste lugar. A memória da Excelentíssima Sra D. Rita Cândida de Mello, por ocasião de 2° aniversário de sua sentida morte. Oferecido a Excelentíssima Sra D. Ana Maria da Conceição, como sinal de respeita estima, profunda gratidão e muito acatamento que lhe tributa o padre.

Joaquim da Silva Pereira
Pains, 19 de março de 1881.

 


 

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